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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Partidos travestidos, a nova estratégia.

por Jorge Werley

Tem surgido na Europa alguns movimentos antí-partido que atraem a atenção dos eleitores dentro do próprio sistema eleitoral. O que parece um tiro no pé, na verdade é uma estratégia de contentamento revolucionário. Na Alemanha temos o Partido Pirata e na Itália o Movimento 5 Estrelas.

Recentemente nos movimentos populares nas praças públicas da Grécia se ouvia um repudio orquestrado contra a participação do KKK que é o Partido Comunista Grego, sob alegação que todos os partidos políticos são todos responsáveis pelo estado da política atual no mundo.

No Brasil, me preocupa se este tal Movimento Nova Política que usa a imagem da Marina Silva não é fruto dessa lógica. Estão anunciando a criação de um partido político a ser inscrito no TSE para brevemente. De minha parte não é uma afirmação e nem uma certeza, é uma dúvida, a qual só a futuro responderá. Espero sinceramente que não seja.

Com o minguar dos partidos tradicionais de direita, como o PFD/DEM, PP e outros; e dos partidos cooptados como foi o PSDB original e o PPS (ex-PCB), além do travestimento de grande parte do PT, isso tudo leva ao desencantamento da juventude com a política, arrefecendo toda aquela potencialidade revolucionária vista pela análise leninista.

Para que esta juventude não adira a outros movimentos realmente revolucionários, a direita cria clones com o "Partido Pirata" e o "Movimento 5 Estrelas". Parece até a tática da igreja católica ao longo da história: "mudar pra permanecer".

A matéria do Le Monde Diplomatique Brasil que transcrevo abaixo é muito interessante para entender essa nova tática da burquesia perfumada sorrateriamente orquestrada por forças ocultas, desesperadas, mais com muito dinheiro para experiencias ilusórias que afastem os olhos da realidade.
 
  
  

Um homem providencial para a Itália

por Raffaele Laudani,
no Le Monde Diplomatique Brasil

Com a vitória nas eleições municipais em maio de 2012, em Parma, capital da indústria alimentícia e sede de multinacionais como Parmalat e Barilla, o Movimento 5 Estrelas (Movimento 5 Stelle, M5S) confirmou suas raízes no cenário político transalpino.
O M5S, fundado há apenas dois anos pelo comediante genovês Giuseppe (“Beppe”) Grillo – o “Grilo Falante italiano”,1 de acordo com o Financial Times–, já conquistou três cidades e contabiliza quase 250 eleitos em diferentes conselhos municipais e regionais. Se alcançasse a mesma pontuação nas eleições nacionais (ou seja, 18%), ele se tornaria a segunda força política, ombro a ombro com o Povo da Liberdade (Popolo della Libertà, PDL) – atualmente em queda livre –, do ex-presidente Silvio Berlusconi.2
Regularmente acusado de “populismo” e de “comportamento antipolítico” pela mídia, o M5S se inscreve ao mesmo tempo numa dinâmica internacional e numa ascendência italiana em si. Assim como formações tão diversas como o Partido Pirata da Alemanha e o Tea Party dos Estados Unidos, ele defende a participação popular, a superação da clivagem entre a direita e a esquerda e o abandono dos partidos tradicionais, considerados corruptos. E, como os girontondi – “aqueles que estão ao redor”, nesse caso em torno da sede das instituições – do diretor Nanni Moretti, a Itália dos Valores (Italia dei Valori) do ex-juiz de instrução da operação anticorrupção Mãos Limpas (Mani Pulite)3 Antonio di Pietro ou ainda o Povo Violeta (que rejeita qualquer cor política), o M5S fez da luta contra a corrupção a pedra angular de seu combate político. A apropriação dessas palavras de ordem com certeza explica melhor o sucesso do movimento de Grillo do que seu slogan de afirmação ecológica: “Água, meio ambiente, transporte, conectividade e desenvolvimento” – as cinco estrelas.
Como se pode ler no site de apresentação de uma de suas comissões locais, o M5S se identifica como um “movimento fluido”, uma “associação livre de cidadãos” desprovida de estrutura hierárquica, seção ou carta de adesão, cujo “único ponto de referência é o blog Beppegrillo.it”. Seus simpatizantes são diversos: neófitos políticos, a maioria dos quais não adere a nenhuma ideologia particular; militantes esquerdistas decepcionados; e mesmo ex-partidários da direita neo e pós-fascista. Essa mistura é particularmente visível nas regiões “vermelhas” da Itália, como a Emilia-Romagna, onde o movimento, até agora, teve seu maior sucesso. Ponto comum desse encontro heteróclito: todos os grillini reconhecem em Beppe Grillo seu verdadeiro representante, a única voz pública do movimento. As normas de algumas comissões locais proíbem que até mesmo simples militantes se expressem na mídia.
O comediante deu seus primeiros passos na política por meio da sátira. Banido das antenas da televisão pública em meados dos anos 1980 por ter chamado os líderes do Partido Socialista Italiano de “ladrões”, ele voltou-se para os palcos e começou uma nova carreira. Por mais de vinte anos, sua crítica afiada dos conluios entre o poder político e os grandes grupos privados atraiu hordas de seguidores em teatros, ginásios de esportes e estádios. Então, ele encontrou na internet uma caixa de ressonância, que não só lhe permite falar diretamente com o “âmago” de um público cuja indignação e frustração ele pretende retransmitir, mas também não se dobrar aos grandes meios de comunicação, que, sempre prontos a se ofender com seus comentários ultrajantes, acabam fazendo publicidade dele mesmo sem querer.
Se Grillo se considera portador de soluções úteis e concretas – sobre energia alternativa, transporte “inteligente” etc. –, o conteúdo de seus discursos conta pouco em sua estratégia de comunicação. Como bem apontado por um jornalista do diário israelense Yediot Ahronot, em 25 de junho, “Grillo é um bom ator que conhece as expectativas de seu público”. Sua superexposição na mídia lhe possibilita consolidar o laço que une seu movimento àquilo que ele considera o bom-senso popular. Grillo regularmente destila declarações homofóbicas ou xenófobas, chamando, por exemplo, o presidente da região da Puglia e fundador do partido Esquerda, Ecologia e Liberdade, Nicola (“Nichi”) Vendola, que é homossexual, de buson (“bicha”, em dialeto genovês), e considerando que a proposta de dar cidadania italiana aos filhos de imigrantes nascidos na Itália “não tem nenhum sentido”. Mais recentemente, alinhando-se com a posição da Liga Norte, protestou contra a “decadência” da vida noturna de verão, que segundo ele atrapalha a tranquilidade e segurança das famílias “de bem sob todos os aspectos”.
Mobilizações emocionadas

O modelo proposto por Grillo deve muito à extrema personalização da política dos anos Berlusconi. No entanto, se a força carismática do “Cavaliere” residia em sua participação direta e invasiva na competição eleitoral, o M5S, por sua vez, oferece uma espécie de liderança sem líder: ele conquista a opinião à medida que seu chefe age fora da arena eleitoral, assumindo o papel de um pregador e moralizador do sistema.
O M5S ainda compartilha com o modelo de Berlusconi uma relação corporativa na política. Mas, também nesse ponto, Grillo inova. O Força, Itália (Forza Italia, primeiro partido criado por Berlusconi) foi uma consequência direta da Publitalia, a empresa responsável pela publicidade e pelo marketing do grupo Mediaset. Na época de seu lançamento, candidatos e militantes eram principalmente empregados e executivos do grupo liderado por Berlusconi. O M5S é, em vez disso, uma espécie de “franchising” política. O nome oficial e o logotipo do movimento pertencem ao chefe, mas seu uso é permitido a qualquer pessoa que se reconheça no “não status” publicado no blog e queira dar vida a um comitê local − o qual, tal como um restaurante McDonald’s, será gerido por ativistas com autonomia quase total em suas ações e em sua organização. Essa independência não impede, no entanto, que Grillo excomungue – discretamente e de acordo com sua boa vontade – militantes que a seu ver se desviam do “espírito” do movimento, como Valentino Tavolazzi, conselheiro municipal de Ferrara, dispensado em 5 de março com um único post no blog de Grillo.
A democracia participativa promovida pelo M5S é muitas vezes reduzida a uma farsa com base na mobilização emocional virtual de ativistas cegos pelo culto que dedicam à internet. De acordo com a filosofia promovida pelo M5S – sobretudo nos vídeos “proféticos” de Gianroberto Casaleggio, especialista em comunicação e cofundador do V-Day (Vaffanculo Day, “Dia do Vai se Foder”), que lançou o movimento no cenário nacional –, a internet é mais do que um instrumento de comunicação: é a condição necessária e o horizonte da nova democracia global que deve surgir em 2054, da vitória do mundo ocidental (e de seu acesso gratuito à rede) no tríptico obscurantista Rússia-China-Oriente Médio.4 No centro dessa “democracia digital”: osmeetups, fóruns de discussão nos quais os militantes “se encontram” para compartilhar as “melhores” soluções para sua cidade ou país. Além dessa dimensão virtual – o que faz lembrar o “televoto”, muito popular na televisão de entretenimento e nas redes sociais, em que o interesse pelos assuntos públicos se confunde com a necessidade de “dizer o que se pensa” e ser ouvido –, a participação de ativistas M5S se limita a formar comitês eleitorais e escolher os candidatos que vão representar o movimento. Um modelo que, no fim das contas, não é tão diferente daquele dos partidos políticos que Grillo tanto gosta de criticar.5
Em contraste, o M5S apresenta poucos pontos comuns – exceto quanto à adesão de um grande número de jovens ativistas precários e hiperqualificados – com os movimentos dos “indignados” ou o Ocupar Wall Street, com os quais muitas vezes Grillo tentou se identificar, considerando que a única diferença era que sua própria formação “não tinha ainda enfrentado as forças da ordem”. No slogan“Que se vayan todos!” (“Que saiam todos!”), entoado por manifestantes na Argentina em 2001, e, hoje, pelos “indignados” na reivindicação por uma “democracia real já” (“Democracia real, ya”) clamada nas ruas de Madri, a corrupção do sistema é vista em seu sentido político primeiro: esgotamento e declínio dos partidos políticos – transformados na correia de transmissão da globalização – e a ficção democrática do sistema representativo. Por outro lado, a indignação dos grilliniexpressa uma defesa feroz do sistema, que teria sido pervertido por políticos imorais.
Além de vagas referências ao tema do “decrescimento”, o M5S tem pouco – ou nada – a dizer sobre a crise econômica, a influência da dívida e dos credores ou a precariedade crescente. Convidado a comentar sobre a possibilidade de deixar a zona do euro, Grillo se resumiu a um lacônico: “Não sei, vamos examinar o problema”. Sobre essa questão, como sobre outras, ele se contenta em reproduzir as posições populares entre os italianos “médios”, sem jamais inseri-las num projeto de sociedade alternativo.
Apesar de seu tom radical, o M5S veicula a mesma concepção de política da ideologia neoliberal que inspirou programas de ajuste estrutural na América Latina na década de 1980 e agora justifica a imposição de governos “técnicos” na Europa. Em ambos os casos, a política é essencialmente administração, exercício de um saber neutro e objetivo aplicado com honestidade e bom-senso. Um bom-senso que é reivindicado pelo novo prefeito de Parma, Frederico Pizzarotti, que, catapultado inesperadamente para o comando de uma cidade muito rica, historicamente nas mãos de “cooperativas vermelhas” e da União dos Industriais, decidiu escolher os membros de seu gabinete considerando apenas o currículo, sem um viés político. Vários meses depois, sua equipe ainda não está completa... É difícil prever o que vai resultar dessa experiência ainda heterogênea e ambivalente. O M5S vai se tornar, como gostariam os grillini, o ator principal de uma renovação democrática radical da política italiana? Ou será, assim como as formações que o precederam, absorvido pelo sistema? Irá se transformar, como preveem alguns, em movimento autoritário, à imagem do fascismo italiano, nascido à esquerda de uma rejeição do sistema antes de se tornar o partido da ordem?
Uma coisa é certa: seus primeiros contatos com o poder revelaram os artifícios de uma política que se apresenta como “pura”, guiada apenas pela moral. No Conselho Municipal de Bolonha, dois grupos, que competem entre si, estão constantemente ameaçando revelar para a imprensa “dossiês comprometedores”. Em Parma, o assessor de urbanismo do novo prefeito do M5S, escolhido por sua competência e profissionalismo, se viu forçado a demitir-se antes de assumir suas funções: ele foi acusado de ter cometido no passado irregularidades imobiliárias e de ter levado sua empresa à falência. “Parece um jogo de massacres”, comentou o incompreendido. “Se queremos brincar de guerra, vamos lá.”6 Como dizia um conhecido moralista, outrora interpretado por Grillo num filme de Luigi Comencini (O impostor, 1982): que atire a primeira pedra aquele que nunca pecou...


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REFERENCIAS

1 Beppe Severgnini, “The chirruping allure of Italy’s Jiminy Cricket” [O fascínio estridente do Jiminy Cricket da Itália], Financial Times, Londres, 5 jun. 2012.
2 Nas eleições de março de 2012, o PDL perdeu a quase totalidade das grandes cidades que detinha. Ler Carlo Galli, “M. Berlusconi, théoricien de la ‘débrouille’” [Berlusconi, teórico do “fazer”], Le Monde Diplomatique, set. 2009.
3 Ler Francesca Lancini, “La grande désillusion des juges italiens” [A grande desilusão dos juízes italianos], Le Monde Diplomatique, jun. 2010.
4 Cf. “Gaia: the future of politics” [Gaia: o futuro da política]. Disponível em: www.youtube.com.
5 Cf. Edoardo Greblo, La filosofia di Beppe Grillo. Il Movimento 5 Stelle [A filosofia de Beppe Grillo. O Movimento 5 Estrelas], Mimesis, Roma, 2011.
6 Gazzetta di Parma, 21 jun. 2012.


fonte: http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1247 

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