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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Contra tudo e todos, Franco ganhou a eleição. Por que será?

Como o eleitorado de mais informação e formação, desconfiado de uma aglutinação partidária tão elástica, foi às ruas e decidiu.
por Mara Paraguassu.

Prefeito Padre Franco Vialleto, de Cacoal
Dentro e fora do PT, em Cacoal, o prognóstico era negativo: Padre Franco Vialetto, prefeito eleito numa vibração de esperança em 2008, não conseguiria a reeleição. As notícias eram da falta de recursos para campanha, insatisfação de setores da população, queixas da gestão, teimosias do candidato etc. Mas ele virou o jogo, e a reeleição foi garantida com 1.567 votos de diferença sobre sua novamente adversária, a deputada estadual Glaucione Rodrigues (PSDC).

Muita gente considera que os ventos sopraram favoráveis pra valer ao prefeito nas duas semanas que antecederam o pleito, quando se acirraram acusações e jogo baixo na imprensa. A virada já faz parte do capítulo dos mais importantes registros da história eleitoral de Rondônia. Padre Franco derrotou adversários que não eram simples moinhos de vento a desafiar a quixotesca luta da ficção contra a realidade.

Foi uma luta da realidade contra a realidade. De um lado uma gestão que tenha sido talvez a mais criticada e atacada de Cacoal, embora comprometida com o interesse público, se equilibrando entre bons e maus momentos, e de outro uma coalizão de 18 partidos unida com a força de chefões políticos, entre eles os senadores Valdir Raupp e Ivo Cassol, na tentativa de eleger prefeita a deputada Glaucione, com muita disposição de romper compromisso feito com seus eleitores em 2010.

Enfrentando tamanha aliança, pesquisas nem sempre confiáveis e notícias negativas quase diárias na imprensa, Padre Franco foi reeleito com 51,87% dos votos, com apoio de cinco partidos - PDT entre eles, legenda de seu vice -, vitória que começou a se desenhar quando pode efetivamente mostrar as ações de sua administração.

O divisor de águas, segundo consultas que pude fazer, teria ocorrido no debate realizado no dia 28 de agosto, promovido pela TV Allamanda, Unesc e Clube Cidade FM. O prefeito falou não apenas de seu plano de governo, exigência posta a todos os blocos do debate.

Explorou ao máximo as mudanças que conseguiu promover em Cacoal, e contou com uma ajuda inesperada (pude aferir no Youtube): o fraco desempenho da adversária, que usou de informações duvidosas e promessas inviáveis para se posicionar, criticando a gestão do prefeito-padre.  

Glaucione cometeu a impropriedade de dizer que a população estaria consumindo água suja misturada com água tratada, logo desmentida por laudos do Departamento de Polícia Técnica e Cientifica. Em época de vacas magríssimas, com a queda de repasse do Fundo de Participação dos Municípios, FPM, disse que destinaria 10% do orçamento para o meio ambiente, sem explicar de onde tiraria recursos. Ficou desconcertada por não indicar emendas a Cacoal da forma que seria de se esperar.

Elogiou o plano (ações na verdade) de Padre Franco, cito em particular no bloco da Educação, com Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) superior a 5, creches em construção e aumento substancial nos recursos para a merenda escolar. A deputada criticou a farta “estrutura de tijolos” da rede hospitalar, mas sem médicos, sem dúvida crônico problema que não será resolvido na Amazônia apenas por vontade dos gestores municipais.        

Antes do debate, pesquisa feita com 453 entrevistados entre os dias 16 a 20 de agosto, pelo Instituto Phoenix, mas somente divulgada no dia 1º de setembro – depois do confronto no auditório da Unesc -, apontou 61,6% de preferência de votos para Glaucione, contra somente 22,3% para Padre Franco.

Outra pesquisa, já mais próxima ao dia da eleição, de uma desconhecida Empresa Pública de Serviços, feita entre os dias 18 e 19 de setembro com 546 pessoas, divulgada 10 dias depois, “elegeu” Glaucione com 54,58% dos votos, contra 35,53% da preferência atribuídos a Franco.  

Como se sabe, não se confirmou uma coisa nem outra, e o debate na Unesc serviu também para desnudar dois personagens políticos de perfis amplamente desiguais, para além do jovem/idoso, homem/mulher e política profissional/político-sacerdote.

Ação penal por compra de votos, prestação de contas da campanha reprovada e infidelidade partidária marcaram, independente de condenação ou não, a candidatura Glaucione em tempos de ficha limpa. E o eleitorado de mais informação e formação foi às ruas para garantir continuidade de ações que julga essenciais, desconfiado de uma aglutinação partidária tão elástica, capaz de comprometer a gestão municipal.

Rede de esgoto

Filiado ao PTB, ex-prefeito por dois mandatos (89/92 e 97/2000), o empresário Divino Cardoso Campos declarou publicamente em 2010, durante inauguração de nova Estação de Tratamento de Água, que o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Cacoal (SAAE) só voltou a receber investimentos na gestão de Padre Franco. O hiato da negligência foi de quase uma década.

“A minha luta principal é o esgotamento sanitário”, disse o prefeito no bloco Meio Ambiente, informando que conseguiu R$ 25 milhões, sem contrapartida da prefeitura, para empreender a tarefa, que já teria sido iniciada, com cerca de 5 mil domicílios atendidos. Me parece uma receita viável para o gestor que se preocupa com meio ambiente e saúde. Não há lugar para proposta miraculosa na instância de poder que menos arrecada.

Par de sapatos

Como um sinal de que sabia ser possível Padre Franco obter o segundo mandato, embora o PTB estivesse do outro lado, Divino enviou ao prefeito par de sapatos novinho uns 15 dias antes do fim da campanha, acossada por insistentes manchetes dando conta da cassação do registro da candidatura petista, desmentida pela Justiça Eleitoral a cada cinco minutos nos rádios, no sábado e no domingo de eleição, tamanho o moinho de mentira atirado contra o prefeito.

Interesse público   

Padre Franco não é incólume a erros. Tem de tomar decisões, erra e acerta na condição de político e gestor. Mas há de se reconhecer o interesse público que caracteriza suas ações, e seu esforço permanente para obter recursos e programas federais em benefício de Cacoal.

Números e ações

Uma explicação para que o eleitorado renovasse o voto de confiança em Padre Franco está nos números e realizações. Alguns exemplos: redução da dengue, deixando para trás 2.500 casos em 2008 para 74 casos notificados; aumento de 276 mil procedimentos na saúde naquele ano para 938 mil e 133; execução de mais de 90 quilômetros de asfalto, “o que não foi feito em 10 anos”, disse no debate o prefeito; taxa de mortalidade infantil menor do que em municípios como Ji Paraná e Porto Velho e do que a taxa nacional (13,8), ficando em 12,7; entrega de casas ou lotes para 700 famílias; conclusão do ginásio Ronaldo Aragão; aeroporto em atividade; teatro em operação; coleta seletiva de lixo e mais 2.600 novas ligações de água tratada.

Acertar o passo

A quem cabe dirigir uma cidade por quatro anos, resta em sua própria   transição refletir sobre descompassos e acertar o passo. Na estratégica Cacoal que emerge como pólo destacado de serviços na educação e saúde, a reeleição do padre comboniano impaciente com os rapapés da política tradicional, que a cada eleição aparta eleitores mais exigentes, quem sabe desvende significado ainda mais notável em Rondônia. A conferir.


Email: maraparaguassu@amazonidagente.com.br

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