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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Realidades antagônicas da economia brasileira

por Marcus Eduardo de Oliveira

Historicamente, a economia brasileira sempre conviveu com realidades antagônicas. Essa característica dúbia, fruto da tardia transição entre a sociedade agrária para a urbano-industrial, faz do Brasil um país diferenciado capaz de conviver com realidades destoantes. A mais aguda dessas certamente é a desigualdade social que realça as pobrezas extrema e absoluta. Esse triste indicador aponta que mais de 15 milhões de brasileiros passam fome, embora estejamos num país com mais de 650 milhões de hectares disponíveis distribuídos em poucas e mal aproveitadas mãos; herança de 400 anos de uma chaga que atende pelo nome de latifúndio. A fome de muitos se mistura ao sucesso do agrobusiness. É assim que se manifestam as realidades antagônicas: o “moderno” andando de mãos dadas com o “arcaico”. A falta de alimentos convive com a exportação de vitaminas, de carnes e de suco de laranja, num país que é o quarto maior vendedor de computadores do mundo, mas 1/3 de nossos alunos ainda não acessam o Google.

Num passado não muito distante, nossa classe governante nos fez acreditar que bastava a economia crescer para que os graves problemas sociais fossem resolvidos, como se crescimento econômico significasse automaticamente melhoria de vida. Crescemos, e daí? De 1870 a 1980, o PIB brasileiro cresceu mais de 150%. De hoje até 2030, crescerá mais de 100%. No entanto, no primeiro intervalo de tempo mencionado o que houve foi apenas concentração de renda. Nos dias atuais, somos o quarto pior país em termos de concentração de renda do mundo, embora sejamos a sexta maior economia do planeta. A economia cresceu, contudo, o país não se desenvolveu, apenas, e tão somente, se modernizou, o que é bem diferente de desenvolvimento (qualidade de vida, bem estar social). Com tanta gente atormentada pela fome, como é possível falar em desenvolvimento num país que insiste em abandonar suas crianças nas ruas das grandes cidades?

E assim vamos convivendo com o moderno e o arcaico. Dessa forma, avolumam-se os problemas econômicos e sociais. Pelo caminho tortuoso de uma economia combalida em seu aspecto social, esse “crescimento defeituoso” vai deixando suas vítimas estiradas ao chão. Em pleno século XXI ainda há gente morrendo de fome nessas terras em que “se plantando tudo dá”.

Essa patologia é endêmica. Somos um país com capacidade de fabricar e exportar aviões, mas 1/3 das residências ainda não tem água encanada. Somos donos de técnicas para a realização das melhores cirurgias plásticas do mundo, mas os rostos enrugados de nossos idosos ainda são mal tratados pelos aviltantes salários pagos em forma de aposentadoria. Os pés descalços de nossas incontáveis crianças dá lugar à exportação de calçados de primeira qualidade para pés estrangeiros. Adoçamos bocas europeias com nossas frutas, mas não a de nossa gente. O tempo médio de escolaridade por aqui é semelhante aos dos países mais atrasados – menos de cinco anos. O analfabetismo (formal e digital) é elevado revelando assim uma nação desigual. Na somatória desses fatos, reforça-se uma premente necessidade: fazer com que o “moderno” supere o “arcaico”, caso queiramos nos orgulhar de sermos a sexta maior economia.

(*) Marcus Eduardo de Oliveira é Economista, professor universitário, mestre pela USP, especialista pela Universidade de Havana (Cuba).

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