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segunda-feira, 16 de julho de 2012

China: desaceleração e/ou transição?

por Elias Jabbour*

Sem uma boa filosofia, uma boa análise da realidade tem a grande tendência de se perder na concentração do que é “estático” em detrimento da “dinâmica”, dinâmica esta que compreende a análise da própria história de uma certa realidade. Pois bem, abstraindo o conjuntural, é correto advogar o termo “desaceleração” a um país que cresceu nos últimos 30 anos a uma taxa média de 9,9% - sendo que em 2011 este crescimento foi de 9,2 e as projeções mais pessimistas para 2012 cravam algo em torno de 8%?

A resposta não é fácil como muitos creem. De fato, este crescimento acelerado foi acompanhado por um crescente do coeficiente “comércio exterior” em relação ao PIB, coeficiente este que cresceu de forma mais acelerada que o próprio PIB entre 1980 e 2010. Desta forma, se tomarmos a história das crises econômicas como a história – numa relação de causa e efeito – das crises do comércio exterior, chega-se sim à conclusão de que o país encontra-se em desaceleração cuja causa primária está no fechamento relativo de mercados externos aos seus produtos.

Mas se tomarmos os dados disponíveis para os meses de abril e maio, a dúvida sobre o processo de “desaceleração” pode aumentar. Em abril verificou-se deflação no Índice de Preços ao Produtor (PPI) que passou de 0,3% em março, para 0,7% em abril. E em relação à produção industrial, o mês de abril apresentou um crescimento inferior ao esperado pelos analistas. Após avançar 11,9% em março, a produção industrial desacelerou e registrou um crescimento de 9,3% em abril, enquanto as expectativas esperavam alta de 12,2%.

Por outro lado, conforme noticiado no Wall Street Journal (11/06/2012), as exportações subiram 15,3% em maio ante um ano atrás, informou ontem a Administração Geral da Alfândega da China, superando o modesto crescimento de 4,9% registrado em abril e bem acima da previsão de 6,9% resultante de uma pesquisa com economistas. Do mesmo modo, as importações cresceram 12,7% em maio contra 0,3% em abril, sendo que a previsão era de que cresceriam 3%.

Dados de uma associação de caráter semioficial (Associação de Fabricantes de Automóveis da China) dão conta de um crescimento nas vendas de automóveis em maio. As vendas de carros de passeio subiram 22,6% frente ao ano anterior, para 1,28 bilhão de veículos. O crescimento ficou acima dos 12,5% de abril, uma recuperação significativa em relação à queda de 1,3% nas vendas registrada no primeiro trimestre em relação a 2011. Sinal claro de que as medidas de expansão ao consumo e ao investimento, replicadas ciclicamente desde 2008, estão surtindo efeitos.

O que significam esses simples números? Variáveis para uma matemática tosca com carapaça de ciência dita econômica? Creio que não. Concentrarmo-nos na contradição inerente dos números pode servir a uma absolutização que não coopera em nada para o que é importante no momento: a China vive uma grande transição que se confunde com um longo processo histórico indicativo da formação de uma economia continental pós-fordista, numa réplica da formação e consolidação do território norte-americano na segunda metade do século XIX. Agregar este caráter estratégico do curso atual da Revolução Chinesa sugere também perceber quais são os atributos presentes no chamado “modelo chinês”, notadamente nas potencialidades de seu mercado interno.

Altos coeficientes de abertura e um quase inelástico mercado interno são as duas pontas de um compasso. O “externo” e o “interno” funcionam de forma quase sincrônica sob o lastro de um poderoso Estado socialista onde o Princípio da Demanda Efetiva é expressão da fusão da Grande Empresa (149 conglomerados estatais concentrados nos setores estratégicos da economia) com o Grande Banco (16 grandes bancos estatais e investimentos).

A mediação desta fusão pode estar presente tanto na estatização dos instrumentos cruciais do processo de acumulação, quanto na planificação do próprio comércio exterior. Novas e superiores formas de planejamento se impõem diante desta “grande fusão” e se concretizam na capacidade deste Estado em transferir centenas de bilhões de dólares de um canto do país.

Logo, a realidade estratégica da já dita formação de uma economia continental é a espinha dorsal num lugar onde o Princípio da Demanda Efetiva torna-se algo como uma lei geral do processo de desenvolvimento do país. Uma quase antítese e relação ao capitalismo norte-americano e europeu onde a Preferência pela Liquidez, há muito, transformou-se em objetiva do funcionamento do sistema.

Diante de uma estratégia capaz de manter expectativas internas e externas atrativas ao investimento, podemos vaticinar boas perspectivas para o Brasil e o mundo. O preço das commodities e outras matérias-primas devem voltar ao estado de normalidade na mesma proporção em que as taxas de investimento com relação ao PIB (na China) devem se manter num patamar entre 37% e 42% para os próximos anos. Isso é possível na medida em que 53% dos investimentos em ativos fixos são concentrados em novas infraestruturas.

Portanto, as comparações – neste campo – com economias como a do Japão e da Coreia carecem de fundamento. Nem a Coreia, nem o Japão têm a demanda de interligar um território das dimensões da China, muito menos uma população de centenas de milhões a serem alçadas ao consumo. E o processo de unificação do território econômico chinês tardará ainda pelo menos 30 anos.

Bom assinalar que pela primeira vez (2011), desde o lançamento do Programa de Desenvolvimento do Grande Oeste em 1999, a renda rural cresceu de forma mais acelerada que a urbana e mesmo diante de um cenário de “desaceleração” (sic) a produção de cereais da China cresceu pelo oitavo ano consecutivo e bateu um novo recorde em 2011, chegando a 571,21 milhões de toneladas, uma alta anual de 4,5%. As possibilidades futuras são mais amplas do que a vã e pobre ortodoxia econômica pode aferir.

Enquanto o Príncipe Moderno (Partido Comunista da China) conduz uma locomotiva que na atualidade é a maior provedora de crédito líquido no planeta e que se apresenta no centro de gigantescos processos de fusões e aquisições, sobretudo na Europa, no Brasil o “Rei” (Plano Real) - criado em algum escritório da Universidade de Chicago, mas com paternidade reconhecida por um “Príncipe da Moeda” (FHC) -, está em plena nudez.

A crise desnudou e a realidade denuncia a necessidade de proscrição do “esquemão” surgido em 1994. O golpe (com o mesmo grau de letalidade do ocorrido em 1964) que se baseou na troca da inflação pela dívida pública chegou ao seu limite. O seu limite “progressista” residiu num cenário externo positivo entre os anos de 2003 e 2010.

Mas hoje a taxa de investimentos decresce de forma mais rápida que a taxa de juros. O objetivo estratégico de “combate à inflação” (ampliada com a quebra da última fronteira da indexação, a poupança) está aí. O pior pode estar por vir: ainda temos seis meses para frente o que significa que novas acomodações para baixo na expectativa de crescimento são amplamente possíveis.

À luz tanto da impetuosidade chinesa quanto da capacidade de nosso povo, o momento é de coragem intelectual para denunciar a verdadeira natureza do Plano Real. Infelizmente, patriotas da estatura e coragem de Ignacio Rangel (1914-1994) não estão tão disponíveis assim neste verdadeiro mercado que se transformou o “debate de ideias”.

Quem sofre é o Brasil. É cada vez mais evidente que somos, conforme o citado gênio maranhense, “um país de cegos guiados por cegos no rumo do abismo”. Ou não. Que a história nos demonstre o contrário. E torço para isso.
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* Elias Jabbour, doutor em Geografia Humana pela USP, é autor de “China: Infra-Estruturas e Crescimento Econômico” (Anita Garibaldi, 2006, 256 p.) e “China Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado” (Anita Garibaldi/EDUEPB, 2012, 456p.). Foi assessor para Assuntos de Economia e Desenvolvimento da Presidência da Câmara dos Deputados (2006-2007)

fonte: do Portal Vermelho

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