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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Estaríamos vivendo uma época de cinismo?

O pesquisador Paulo Gajanigo afirma que sim e que a fronteira entre a tolerância e a intolerância é mais tênue do que imaginamos. Senão vejamos:

Você pode reconhecer alguém ou mesmo se ver nas aspas abaixo?

“Plena igualdade de direito, tanto pros homens quanto pra nós, mulheres, não tem que ter distinção. É, mas acho que o papel de chefe de casa ainda é do homem, é uma coisa de tradição…”.

“Gays? Não tenho nada contra, aliás, tenho até amigos gays. Nada contra mesmo, sei respeitar as diferenças, desde que não mexam comigo, não mexo com ninguém. Mas agora querer colocar beijo gay em novela e cartilha contra a homofobia nas escolas, aí já demais. Não precisa incentivar…”.

“A mulher deve se libertar sexualmente: nada de medo, garotas, vocês são donas dos seus desejos. Que? É… não, quer dizer, sim, sim, claro que eu quero me casar é com uma mulher direita, que seja correta”.

Discursos como esses aí de cima rolam em qualquer boteco, roda de amigo ou mesa de jantar do país. E o diagnostico parece ser esse: há um cinismo movendo a sociedade.

“O cinismo é a marca de uma época em que os aspectos de nossa vida nos parecem desconectados, fragmentados. O cínico é aquele que desvincula discurso de prática. Quando vemos que o cinismo tem se generalizado, isso indica que vivemos cada vez mais a experiência dessa desvinculação”, aponta o pesquisador Paulo Gajanigo .

Quando se fala em sexualidade esse caminho – da tolerância à intolerância – é suave, quase sem nenhuma crise de consciência. Isso porque a tolerância finca uma estaca bem clara: “eu aceito o outro até certo ponto; passou da minha margem de conveniência, não”. Porque, claro, deve-se aceitar a homossexualidade, a luta contra o sexismo, direitos de travestis, transexuais e prostitutas, mas há UM LIMITE, bem fixado, em caixa-alta e que não se deve passar. Mas por quê?

Gajanigo tem uma  resposta. “Essa posição se contrapõe a uma ética de solidariedade. A tolerância não se guia pela compreensão do outro, por se colocar no lugar do outro, mas por meio de abstrata posição de respeito. Essa posição abstrata é insuficiente para um humanismo de fato, por ser um respeito formal, pode-se usar de formalidades para justificar que certo comportamento passou do tolerável. A ética é fruto da prática, é produto histórico da sociedade”.

Para ele, uma ética de fato solidária não brota de um ambiente que estimula a concorrência e discutir a intolerância implica em não ter medo de ligar essa discussão a outros aspectos da vida, como a forma de produção, o mundo do trabalho e o mercado.

Está tudo flexível. Relativo. O lance é anular paradoxos e contradições, amaciar conflitos. E nessa ótica de flexibilização rola um curto-circuito na passagem da essência para a aparência e vice-versa.

Em seus trabalhos, o filósofo esloveno Slavoj Zizek  afirma que a identificação dos “sem-parte” como parte da sociedade, mesmo desprovidos de lugar verdadeiramente justo, é um gesto elementar da politização. Ao contrário, a identificação com o particular, característica de despolitização da economia, ajuda a perpetuar a condição de excluídos.

Assim, respeitamos o outro o concebendo como uma comunidade “autentica” fechada sobre si mesma, e a pessoa adepta do discurso da tolerância  mantém, pelo seu lado, uma distancia que torna possível a sua posição universal privilegiada. Tolerância, portanto, seria uma construção do capitalismo para reduzir os significados do plural ao simples e fundamental, apropriando de conceitos para esvazia-los de conteúdo, mapeando algumas tendências.

“Ao mesmo tempo em que temos cada vez mais instrumentos técnicos de participação, os espaços são cada vez mais controlados, assistidos. Pesquisas de opinião, que de um lado podem parecer formas do governo  se adequar ao que as pessoas querem, são meios de identificar tendências, antecipar respostas e assim aumentar a segurança dos governos em relação aos governados”, diz Gajanigo. E acrescenta: “o cinismo, como forma de desvincular discurso e prática, serve a uma democracia formal, pois fornece liberdade discursiva para articular divergências políticas e de modo de vida”.

Pergunto para ele se esse discurso cínico de tolerância pode agravar as formas de dominação.

“Não sei”, responde. “No âmbito discursivo, estabelece-se um cabo de força. De um lado, o oprimido encontrará mais legitimidade em reivindicar direitos, de outro, os opressores acabam por dominar o discurso da tolerância, de forma que podem usar o discurso do politicamente correto para despistar seu comportamento opressor”.

original publicado em  http://rede.outraspalavras.net

Um comentário:

  1. Ao ler, algo em mim sentiu espetado, não propriamente pela forma que foi exposto o assunto,mas tem parênteses que foram abertos e que não foram fechados.É aí que eu construo o meu discurso.Quando é dito que o cinismo move a sociedade veio à mente a seguinte pergunta:Em que época tivemos uma sociedade não cínica? O cinismo está presente em todos os discursos quer seja nas pesquisas como nos pesquisadores. Quer seja na política educacional como na política que envolve segurança, saúde, bem estar profissional. É o jogo de poder que alimenta tanto os que estão no comando como os que estão sendo comandados. O cinismo está no ar!Há uma sensação de liberdade quando estamos sendo cínicos. Liberdade de defesa, de ataque. É uma catarse que desapacotamos quando temos que dizer o indizível. Vomitamos aquilo que não comemos só para não declarar quem somos de verdade.O cinismo é uma arma poderosa de enganar e de ser enganado.Enfiamos uma faca como se estivéssemos enfiando algo prazeroso.Aceitar o outro até certo ponto é o limite de nós não nos contaminarmos , porque ser cínico é concorrência. Faço com o outro o que realmente quero que façam comigo. Se fingem que me pagam; finjo que produzo. Assim se vai a sociedade montando suas histórias, replicando o que se aprendeu. Como se evidencia uma aprendizagem? Observando, ouvindo, lendo e praticando como um exercício a ser decorado. O cinismo é aprendido. Não se nasce cínico se nasce com um aparato para aprender. Todos somos capazes de mudar o que nos incomoda. É por isso que Sartre diz que a existência precede a essência. Tudo está em nossas mãos. Somos deus e assim arquitetamos o mundo que queremos , o governo que desejamos. Somos livres para desconstruir o que envelheceu, o que ficou sem cor, o que ficou sem sentido. Quebrar o que se está em perfeito estado e que é doentio. Destronar os que pensam, os que mandam e colocar os que obedecem, os que executam. Vamos fazer um rodízio de cinismo,mudando os nomes e tornando eficaz a prática do cinismo cínico.

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