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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

As teorias de Karl Marx ainda podem explicar a crise econômica atual?

Reproduzimos abaixo uma conversa do professor Ruy Braga, docente do departamento de sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic), publicada no site da editora Boi Tempo.

Folha: As teorias de Karl Marx ainda podem explicar a crise econômica atual?

Ruy Braga: De fato, Marx está de volta. Aos meus olhos, não há como compreendermos o momento atual sem recorrermos à noção de fetichismo da mercadoria, à teoria do dinheiro, ao conceito de capital fictício ou à teoria das crises cíclicas do capitalismo, todos presentes em "O Capital". Na realidade, nenhum outro economista ou sociólogo levou tão a sério a crise capitalista quanto Marx. É por essa razão que o marxismo não tem grandes dificuldades analíticas de explicar o funcionamento crítico do capitalismo.

Folha: O senhor percebe semelhanças entre a ocupação em Wall Street, as revoltas de jovens sem emprego na Europa e mesmo a Primavera Árabe?

Ruy Braga: É possível perceber algumas semelhanças. Em primeiro lugar, a principal força impulsionadora destes movimentos é, sem dúvidas, o jovem precariado global. A inserção no mercado formal de trabalho tornou-se cada dia mais incerta, fazendo com que a juventude oriunda dos grupos sociais subalternos questionasse a promessa, inerente ao capitalismo, do progresso individual por meio do trabalho. A crise atual está funcionando como um catalisador desta interrogação, conduzindo milhares de jovens precarizados à ação direta.

Além disso, estes movimentos estão construindo aquilo que podemos chamar de "poder simbólico": buscam se apropriar de espaços públicos a fim de superar suas debilidades organizativas e mobilizar outros "indignados". Para tanto, fazem uso das mídias sociais. Finalmente, estes movimentos estão construindo pontes com os sindicatos. Contudo, não devemos exagerar nas convergências. A juventude árabe enfrenta sanguinárias ditaduras e milhares foram mortos na Líbia, na Síria e no Egito. Evidentemente, não é este o caso dos Estados Unidos e da Europa.

Folha: Quais resultados concretos podemos vislumbrar para estes movimentos?

Ruy Braga: Na verdade, estes movimentos já produziram efeitos muito concretos. A Revolução Egípcia pôs fim a uma ditadura de 30 anos. O regime político sírio nunca mais será o mesmo, independente do resultado da revolução em curso naquele país. Todo o arranjo do poder no Oriente Médio foi alterado pela Primavera Árabe. Na Europa, a exemplar resistência da juventude e dos trabalhadores gregos à "Troika", isto é, ao FMI, ao Banco Central Europeu e à Comissão Europeia, tem adiado a implementação da política de ajuste estrutural baseada nos cortes dos gastos sociais estatais.

Dois meses depois de iniciado, o movimento em Nova York ainda conta com ampla simpatia da opinião pública estadunidense, além de ter inspirado movimentos semelhantes ao redor do globo. Aliás, este "poder simbólico" aponta para uma questão crucial: como desafiar exitosamente algo tão fugidio quanto o capital financeiro? Eis a principal razão pela qual manifestantes ocupando pacificamente praças públicas foram violentamente reprimidos pela polícia em diferentes cidades nos Estados Unidos.

Folha: O senhor percebe algum reflexo desses movimentos no Brasil?

Ruy Braga: A despeito de não estarmos imunes à crise mundial, evidentemente, a economia brasileira não se encontra no mesmo compasso da estadunidense ou da europeia. Isto tende a enfraquecer as ocupações de espaços públicos no país. Contudo, gostaria de realçar um aspecto. Este ano, o precariado brasileiro deu repetidas provas de sua capacidade organizativa. Começamos o ano com uma greve nacional nas obras do PAC que contou, segundo dados do Dieese, com a participação de 150 mil trabalhadores.

Ao longo de 2011, milhares de professores do ensino fundamental e médio entraram em greve no país todo. Isto significa que os trabalhadores no país estão aprofundando sua experiência com o atual modelo de desenvolvimento dirigido pela burocracia lulista, começando a tirar suas próprias conclusões. Uma delas coloca em questão a exclusão política que os submete: os trabalhadores precarizados não se sentem mais representados pelos sindicalistas lulistas e buscam se auto-organizar.

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