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sábado, 27 de agosto de 2011

Pré-tese da Articulação de Esquerda ao II Congresso da JPT


Publicamos abaixo trechos da tese da Articulação de Esquerda para o II Congresso da JPT:


A esperança é vermelha!

Uma vez mais a juventude petista se reúne para definir seus rumos. Mas desta vez é diferente. Ao aprovar o regimento interno da JPT o II Congresso cumprirá com uma tarefa histórica sem precedentes: consolidar a autonomia política e organizativa de um novo modelo de organização dos jovens no PT.
Mas, este momento da JPT integra um movimento histórico mais amplo. Além de combater o envelhecimento partidário e garantir a renovação de gerações, trata-se de criar os mecanismos para que a novas gerações deste início do século XXI consigam modificar positivamente as circunstâncias deixadas pelas gerações precedentes e assumam a construção do socialismo em melhores condições.
Neste sentido, a construção da JPT poderá contribuir sobremaneira na superação dos problemas políticos e organizativos vividos pelo partido atualmente. Segundo a resolução do III Congresso do PT, a juventude pode cumprir um papel estratégico no partido no sentido de superar as velhas práticas e formar uma nova geração de dirigentes comprometidos com a reconstrução do PT como um partido socialista, democrático, militante, dirigente e de massas.

UM OLHAR SOBRE A JUVENTUDE
Diferentes percepções

Juventude continua sendo alvo de intensos debates acadêmicos, políticos e no campo das políticas públicas. O tema está na ordem do dia: juventude aparece na mídia, em ações governamentais e não governamentais, nos movimentos sociais, como algo sobre o qual temos que nos debruçar e debater. 
Permeada por definições genéricas, associada a problemas e expectativas, por um lado, a juventude tende a ser constantemente substantivada, isto é, tratada como uma coisa palpável. Por outro lado, tende a ser adjetivada, atribuindo-lhes termos como revolucionária, impulsiva, violenta, sem que se busque a autopercepção e formação de identidades daqueles que são definidos como jovens. 
Em outras palavras: a juventude ainda é hegemonicamente percebida através de diferentes estereótipos que dificultam ou mesmo nos impedem de aproximarmos nosso olhar da juventude realmente existente.
Nenhuma destas percepções é capaz de dar respostas a quem pretende analisar a juventude, pois são todas carregadas de conceitos pré-estabelecidos. Atribui-se aos jovens características, adornos e estereótipos que não são nem constantes nem exclusivos da juventude. Em suma, a juventude como qualidade, que poderia ser apropriada por qualquer indivíduo que opte por assumir tal condição ou construí-la para si.
Em partidos de esquerda são recorrentes conceitos de juventude que a associam diretamente com rebeldia, contestação, vanguarda, aberta ao novo etc. A conclusão dessa interpretação da juventude é óbvia: num partido de esquerda, pelo seu estado de espírito, todo mundo é jovem e, portanto, é uma redundância falar em políticas específicas para a juventude.
Contudo, principalmente a partir das décadas de 80 e 90, o debate trouxe o olhar da diversidade. Não se fala mais em juventude, mas em juventudes. Sem dúvida este foi um caminho que contribuiu para fugirmos de um olhar homogeneizante. Todos os jovens – cada um à sua maneira – vivem a juventude. A juventude não possui corporação. 
A mudança no olhar: autonomia e liberdade
Mas estes novos conceitos, que representam um avanço significativo, ainda têm um longo caminho a percorrer para se tornarem hegemônicos na sociedade.
E, a depender da concepção de juventude adotada, haverá diferentes abordagens sobre os jovens. Conseqüentemente, serão formuladas diferentes políticas públicas e concepções de organização juvenil. 
Para dar prosseguimento ao processo de disputa de hegemonia, se não quisermos estagnar nas atuais formulações, faz-se necessário aprofundar alguns conceitos. É neste sentido que a autonomia, a liberdade e o direito à experimentação devem ganhar cada vez mais relevo quando falamos de juventude.
Em geral, com a justificativa da proteção e do cuidado, os pais ou familiares exercem uma forte dominação sobre os jovens: definição de horários de entrada e saída na casa, restrições à participação em festas ou atividades de convivência, controle e repressão da atividade sexual, intromissão na escolha de parceiros afetivos, interferência na escolha profissional ou pressão para o ingresso precoce no mercado de trabalho, ainda que seja em ocupações precárias.
Outra forma de dominação e hierarquia na família é a desigualdade de gênero. As jovens mulheres são inferiorizadas nessa relação de poder. Como historicamente atribui-se como papel das mulheres o âmbito doméstico, esse é o momento crucial na vida dessas jovens, onde elas “optam” pelo lar e sonham com o príncipe encantado. Ou pelo menos era isso que se esperava que elas fizessem.
Evidentemente, as situações de dominação não são homogêneas e nem acontecem em todas as famílias. De qualquer modo, durante a juventude a maioria das pessoas vivencia conflitos familiares intensos e por conseqüência as alternativas para conquistar a autonomia, que variam também de acordo com as origens sociais.
No Brasil, para a maioria dos jovens, os processos de busca de autonomia, aprendizado e experiências não consegue seguir o curso dos desejos, interesses e potencialidades pessoais. 
É preciso, portanto, proporcionar a vivência da juventude com a possibilidade de escolha e experimentação, permitir que a curiosidade construa aprendizados e se torne instrumento fundamental para entrar em contato com as novidades diante das quais os jovens se deparam, formulam suas dúvidas e buscam suas respostas.
Afinal, há muito mais na existência humana do que a economia política possa responder.
É assim que devemos encarar a relação entre juventude, desenvolvimento e socialismo.


JPT MILITANTE E DE MASSAS
Questões de organização
Na discussão sobre a organização da JPT dizemos que é a finalidade política que define a estrutura organizativa e seu funcionamento.
Contudo, se a definição dos objetivos surge de uma vanguarda dissociada das massas que pretende representar, dificilmente a organização que surgir desse esforço obterá a legitimidade necessária para impulsionar as lutas em defesa dos interesses gerais e permanentes da classe trabalhadora.
Ao mesmo tempo, se a finalidade política for produto do esforço combinado e integrado entre as massas e a vanguarda, a elaboração de diretivas de luta surge, então, numa in¬tensa ação recíproca entre a teoria e a prática. 
Para isso, toda orientação teórica ou divergência de opinião tem de ser transformada instantaneamente em questão de organização, se não quiser permanecer uma mera teoria ou opinião abstrata, se tem realmente a intenção de mostrar o caminho para sua realização. 
Esta é a razão essencial para fazer da democracia um elemento vital da organização política. Somente quando o Partido se torna um mundo de atividade para todos os seus membros é que pode superar o papel de espectador diante do curso inevitável dos acontecimentos.
Neste sentido, a construção da unidade entre a espontaneidade da iniciativa militante e a direção política da organização depende da existência de instâncias ativas e com funcionamento regular, capazes de proporcionar a discussão democrática de opiniões e propostas e a construção de sínteses de diretivas de luta que expressem as formas de luta mais adequadas à uma dada realidade concreta, cuja análise precisa depende de muito mais que um bom domínio de instrumentos teóricos. 
O PT e a juventude
Neste sentido, se a Juventude do PT pretende se tornar a referência da juventude trabalhadora, antes deve ela própria ter a juventude trabalhadora como referência. Se hoje a JPT ainda não superou o modelo setorial é porque ainda não se integrou à juventude trabalhadora a ponto de sentir imediata e plenamente se suas diretivas estão de acordo com as aspirações dos jovens trabalhadores.
É verdade que o Governo Lula foi capaz de conquistar a aprovação e a simpatia de parcelas expressivas da juventude brasileira. Mas a moeda tem dois lados: esta identidade não se traduziu em uma aproximação correspondente com o Partido dos Trabalhadores.
Ademais, a maioria dos jovens hoje em dia está vivenciando sua socialização para além do ambiente escolar, familiar e comunitário em um momento histórico que o PT representa o Governo Federal e, portanto, deixa de ser identificado como alternativa de projeto passa a ser compreendido como o próprio status quo. 
Ou seja, como os mandatos do PT no Governo Federal são o retrovisor com o qual as novas gerações realizam sua própria percepção da evolução política no Brasil, o antídoto para o afastamento dos jovens em relação ao PT é mais organização popular, mais mobilização social e mais partido.
Contudo, o debate sobre a juventude e o PT deve ir muito além da mera definição de táticas para atrair os jovens para o partido. Estabelecer metas de filiação nada ajudam a resolver nossos problemas de fundo.
Como o PT é um partido formado por uma parcela expressiva de jovens, tem a sua juventude envolvida no dia-a-dia da vida política do partido e dos movimentos sociais. Isso faz com que muitos não participem dos núcleos ou coletivos de juventude. São esses os jovens militantes que devem compreender a dimensão estratégica da organização de juventude para o projeto socialista do PT e assumir a construção da JPT por suas próprias mãos.
Contudo, não podemos esquecer que o conjunto do partido precisa assumir a organização da juventude como um compromisso coletivo das diversas instâncias partidárias. Isto exige, entre outras iniciativas, o acompanhamento político dos principais quadros; a interface estável entre as estruturas de juventude e os órgãos de direção do partido; o investimento material e humano; a clareza de objetivos táticos e estratégicos; e uma formação política sólida.
Mas para criarmos um novo modelo de organização de juventude para o PT precisamos resolver um problema anterior: a visão hegemônica do PT sobre a juventude.
Neste sentido, a luta política para definir o tipo de organização de juventude que teremos no PT não será travada apenas como um conflito geracional, mas como uma disputa política sobre a qual a juventude petista não deve abrir mão de assumir um papel decisivo.
Um novo patamar organizativo para a JPT
Um dos motivos pelos quais avançamos pouco na transição da JPT do modelo setorial para um braço militante de massas do PT na juventude é porque ainda carecemos de uma estratégia capaz conduzir a JPT neste período de transição. 
Um primeiro passo essencial é repensar a relação entre o partido, os movimentos sociais e as demais formas de organização e luta das classes trabalhadoras e demais setores populares.
De fato, vivemos em um período de descenso das lutas sociais. Mas o nível real de mobilização dos movimentos sociais possui causas históricas, objetivas. Isto não significa que a luta de classes deixou de se desenvolver. Na verdade, as formas que ela passou a assumir simplesmente diferem historicamente daquelas assumidas em um momento anterior.
Paradoxalmente, a mudança destas condições objetivas nas quais se dá a luta de classes concreta dependerá da própria mobilização social ou, sendo mais preciso, do aprendizado que as classes em luta extraírem de suas experiências de conflito direto com os interesses das classes dominantes.
Trabalho de base
Por isso o trabalho de base em momentos de aparente calmaria nas lutas de massas assume grande importância. Nestas ocasiões, uma organização com direção política como a JPT deve ser capaz de integrar-se às lutas espontâneas e autônomas que a juventude trabalhadora desenvolve em seu cotidiano. Sem esta integração nem estes jovens poderão se aproveitar da contribuição partidária na direção política de suas lutas, nem a JPT será capaz de realizar uma análise precisa da realidade concreta, a ser extraída da própria dinâmica das lutas de classes.
Para ser capaz de realizar um trabalho de base com esta orientação, a JPT deve organizar tanto os núcleos da JPT, conforme expressos na resolução do I ConJPT, como núcleos de organização populares não necessariamente vinculados com o PT, inicialmente. Não se trata de uma tarefa meramente burocrática de instituí-los. É preciso estimular a iniciativa militante dos jovens filiados e não filiados para integrarem-se nas lutas existentes em seu local de trabalho, estudo e moradia e para impulsionar lutas e agregar pessoas em torno de reivindicações concretas que expressem os anseios de quem convive naquele determinado espaço de sociabilidade.
Para isso os núcleos devem ter três pilares principais: ação direta, integração e formação política. Por ação direta compreendemos a organização de nossa atuação nos locais de militância, desde o debate sobre a política e a melhor tática de atuação coletiva até a distribuição de panfletos, colagem de cartazes, comícios relâmpagos, abaixo-assinados, manifestações, abordagem nas ruas. Por integração compreendemos shows, rodas de viola, saraus, peças teatrais, recitais de poesias, mostras de grafite, pinturas e artes plásticas, oficinas variadas, exibição de filmes, campeonatos esportivos, gincanas, etc. Por formação política compreendemos leitura de textos, bate-papos sobre assuntos específicos, depoimentos de militantes históricos, realização de cursos, seminários e colóquios, organização de bibliotecas e videotecas, etc.
A periodicidade e a regularidade do funcionamento destes organismos são o aspecto fundamental desta iniciativa.

Leia toda a pré tese da Articulaçãp de esquerda: 

Para saber tudo sobre o Processo de Eleição Direta da Juventude do PT:

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