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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Conversa entre Jean de Léry e um velho índio Tupinambá no século XVI

Só rindo da loucura dos "civilizados".
Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar o seu arabutan (madeira pau-brasil). Uma vez um velho perguntou-me:

- Por que vindes vós outros, maírs e perôs (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer ? Não tendes madeira em vossa terra ?

Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele supunha, mas dela extraímos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas. Retrucou o velho imediatamente:

- E porventura precisais de muito ?
- Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados.

- Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas; acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre?
- Sim, disse eu, morre como os outros.

Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo:

- E quando morrem para quem fica o que deixam ?
- Para seus filhos, se os têm, respondi; na falta destes, para os irmãos ou parentes próximos.

- Na verdade, continuou o velho, que como vereis, não era nenhum tolo, agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem ! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também ? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois de nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados.

(publicado no livro "Viagem à terra do Brasil" de Jean de Léry)

19 de abril o dia do índio. Nada a comemorar.
por Jorge Werley.

Muito me honra saber que tenho sangue da brava etnia Mura a me correr nas veias. E qual caboclo não tem? Fico impressionado quando vejo rondonienses que se sentem ofendidos quando ouvem algum famoso falar que aqui só tem índio. Se ofendem não porque os indios são minoria depois do genocídio perpetrado e sim porque os consideram inferiores e não querem ser contados como. Nessas horas minha alma cabocla chora. 

2 comentários:

  1. Nunca os povos indígenas brasileiros viveram momentos tão angustiantes. Esse "amontoar riquezas" merece ser debatido pelas novas gerações no momento em que as moedas internacionais entram em bancarrota e o desrespeito às minorias ultrapassa todos os limites.

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  2. Que incorporemos esses saberes dos Tupinambá e dos ameríndios com um todo. Parabéns a alma cabocla do Werley. Montezuma, continuemos a levar adante esses saberes!

    Visitem: ademarioar.blogspot.com

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