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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Eleições na Colômbia: 56% do eleitorado adotou a posição das FARC.

por James Petras
Em primeiro lugar, o mais importante que estamos a analisar é o processo eleitoral na Colômbia. Esse é o tema principal que temos tratado porque a própria esquerda semeou muita confusão sobre os resultados do processo eleitoral. Ou melhor, não trataram o resultado eleitoral num contexto mais amplo e é isso que o que devemos discutir. Porque o facto mais destacado é que 56% do eleitorado não votou. Ou seja, 56% consciente ou inconscientemente tomaram a posição das FARC. Não digo que estejam informados pelas FARC nem necessariamente que seja simpatizantes, mas por várias razões compartilham a ideia de que não vale a pena votar nas eleições principalmente porque ambas as opções eram muito desfavoráveis e nada ofereciam ao povo.
Para entender isso creio que devemos voltar uns anos atrás, particularmente aos últimos 10 anos do governo de Uribe e inclusive antes. Este resultado eleitoral tem como contexto o deslocamento de 4,3 milhões de pessoas. Tem o contexto de uma repressão feroz que matou mais de 1.800 sindicalistas, incluindo dirigentes. Mataram centenas de activistas de direitos humanos, advogados e jornalistas. E isso influi muito sobre a atitude das pessoas para com as eleições. Em dois sentidos: sentem-se aterrorizados pelo governo e alguns, neste contexto, pressionados a votar porque os militares estavam presentes em todos os lugares de votação. Os paramilitares e os políticos vinculados ao paramilitarismo, que chega ao próprio governo, influenciavam em todos os lugares de votação.
Mas antes de mais nada devemos entender que quando se organiza uma eleição isso é um processo de debate, de reivindicar e não reivindicar as necessidades do povo. E num contexto de terrorismo prolongado e generalizado não se pode avaliar o que sentem as pessoas, o que um contexto pacífico e democrático pode permitir. Neste contexto temos um país militarizado, 300 mil soldados, mais polícias, mais paramilitares, não é um contexto democrático para eleições.
E além disso o Estado utiliza todos os mecanismos, os meios de comunicação e incomunicação, utilizam tudo o que são as prebendas do Estado circulando nos bairros para conseguir algum voto. E também temos o facto de que o candidato presidencial, o que ganhou, o "Diabo" Santos, é uma pessoa envolvida nos assassinatos, foi o ministro da Defesa que organizou os chamados "falsos positivos", estimulando os militares a matar civis para mostrar que o exército teve grandes êxitos matando subversivos.
Descobrimos em pouco tempo que muitas das vítimas nada tinham a ver com a guerrilha nem com os grupos simpatizantes. Eram simplesmente civis, camponeses principalmente e gente pobre, escolhidos para assassinatos para mostrar que o exército teve grandes êxitos no combate. O senhor Santos é implicado e julgado neste contexto.
Ressoando uma mentira.
Os diários, tanto no Uruguai como no México, dizem que a direita arrasa. Arrasa o que? O voto em Santos foi simplesmente 30,8% do eleitorado. Se consideramos os que não votaram, os 70% que conseguiu, os 70% de 44% não chegam ao que eles dizem, chegam a 30 e poucos por cento.
E é preciso analisar os lugares onde votaram e não votaram. Nos grandes bairros popular o absentismo foi quase de 65%. O mesmo se passou em sectores rurais, algumas províncias tiveram quase 75% de absentismo.
Onde conseguiram uma maioria esmagadora de votantes foi nos bairros influentes, os bairros da classe média acomodada, e na classe média baixa em menor percentagem. Mas nos bairros altos conseguiram uns 70% ou 75%. Então há uma grande diferença entre os sectores populares e as regiões no resultado das votações. Muitos sindicalistas, particularmente nas províncias, não votaram por nenhum dos dois. E o mesmo se passou com alguns grupos de direitos humanos.
Agora, para disfarçar este processo eleitoral ilegítimo, os oficialistas utilizaram dois pretextos. Primeiro disseram que as chuvas reduziram a participação. Se alguém não quiser molhar-se por um candidato isso é um bom indicador do desprestígio que tem o sistema eleitoral.
E segundo, o campeonato mundial, não afecta todas as horas do dia, há tempo para ver as partidas e há tempo para votar. Assim, estas desculpas para justificar a baixíssima participação não têm legitimidade.
Por que os diário estão a dar tanta publicidade, disfarçando o facto de que o pior assassino do governo Uribe ganha as eleições com uns 30,8% do eleitorado. Por que? Creio que indica estarem preparados para apoiar-se numa nova política de acomodação com o imperialismo norte-americano. É um sinal de que no próximo período o senhor Santos, com Obama e a direita na América Latina, estão preparados para uma nova ofensiva. E os meios de comunicação, inclusive os jornais supostamente progressistas, estão dispostos a entrar nesse jogo
fonte: http://www.resistir.info/petras/petras_25jun10.html

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